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sábado, 24 de setembro de 2011

O que nos falta?

    
  Capa de: O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível 
João Francisco Duarte Jr.

    Muito se tem falado sobre atitudes agressivas, sobre a perda de valores, que têm atingido a todas as camadas da sociedade, seja em casa, seja no trabalho, seja na rua, seja na escola. Eu presencio diariamente cenas de deixar qualquer um de cabelos em pé – e mesmo aqueles sem cabelos. Nem preciso descrevê-las, porque com certeza, você aí, leitor, também presencia várias atitudes “desordenadas”, digamos assim, no seu dia a dia.
    Estou lendo no momento a linda tese de Duarte Jr. (O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível) sobre a educação estética - por meio da arte -, e concordo plenamente com ele quando diz que a “capacidade sensível do ser humano” vem sendo substituída pela sociedade moderna pela “anestesia” – a negação do sensível, a incapacidade de sentir. E não é isso mesmo? Poucos apreciam as boas coisas, poucos param para sentir as coisas, poucos elogiam, poucos percebem as paisagens, os bons cheiros, o que é belo, poucos...poucos...poucos.
    Por isso a grande e urgente necessidade de dar atenção aos “processos sensíveis do corpo”, diz o autor. Para Duarte Jr., a crise da sociedade contemporânea gira em torno da deseducação dos sentidos.  Diz ele que o ser humano entrou em uma espécie de regressão que chegou a níveis “toscos e grosseiros”, haja vista a degradação do meio-ambiente, do espaço urbano, da falta de valores que podemos perceber em todos os lugares. Volto a repetir: E não é isso mesmo?
    O que podemos fazer? Eu, como professora, preciso com urgência levar os alunos a ter uma educação do sensível. Não é utopia. Sou professora e é o que tenho tentado fazer. Tenho tido bons resultados? Não sei ainda, mas a médio e longo prazo, penso, quem sabe, atingir alguns, e estes alguns possam, quem sabe, atingir outros alguns, e assim por diante. É isso que estou fazendo e vou continuar a fazer. Eu não desisto!

     Leia o livro de João Francisco Duarte Júnior (todo professor deveria ler, na minha modesta opinião) - O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível - Curitiba: Criar; e busque você também caminhos para pararmos de ser “toscos e grosseiros”.

 Até a próxima!

sábado, 10 de setembro de 2011

Canibal de Moacyr Scliar

Gosto muito deste texto do médico e escritor Moacyr Scliar. Neste texto ele mostra de forma alegórica a ganância dos seres humanos naqueles momentos em que o caminho da razão seria o de compartilhamento. Além disso, ele mostra que a corda arrebenta sempre para o lado mais fraco. Leia e aprecie!




CANIBAL


Moacyr Scliar



Em 1950, duas moças sobrevoaram os desolados altiplanos da Bolívia. O avião, um Piper, era pilotado por Bárbara; bela mulher, alta e loira, casada com um rico fazendeiro de Mato Grosso. Sua companheira, Angelina, apresentava-se como uma criatura esguia e escura, de grandes olhos assustados. As duas eram irmãs de criação.
             O sol declinava no horizonte, quando o avião teve uma pane. Manobrando desesperadamente, Bárbara conseguiu fazer uma aterrissagem forçada num platô. O avião, porém, ficou completamente destruído, e as duas mulheres encontravam-se, completamente sós, a milhares de quilômetros da vila mais próxima. Felizmente (e talvez prevendo esta eventualidade), Bárbara trazia consigo um grande baú, contendo os mais diversos víveres: rum Bacardi, anchovas, castanhas-do-pará, caviar do Mar Negro, morangos, rins grelhados, compota de abacaxi, queijo-de-minas, vidros de vitaminas. Esta mala estava intacta.
            Na manhã seguinte, Angelina teve fome. Pediu a Bárbara que lhe fornecesse um pouco de comida. Bárbara fez-lhe ver que não podia concordar; os víveres pertenciam a ela, Bárbara, e não a Angelina. Resignada, Angelina afastou-se, à procura de frutos ou raízes. Nada encontrou; a região era completamente árida. Assim, naquele dia ela nada comeu. Nem nos três dias subseqüentes. Bárbara, ao contrário, engordada a olhos vistos, talvez pela inatividade, uma vez que contentava-se em ficar deitada, comendo e esperando que o socorro aparecesse. Angelina, pelo contrário, caminhava de um lado para outro, chorando e lamentando-se, o que só contribuía para aumentar suas necessidades calóricas.
            No quarto dia, enquanto Bárbara almoçava, Angelina aproximou-se dela, com uma faca na mão. Curiosa, Bárbara parou de mastigar a coxinha de galinha, e ficou observando a outra, que estava parada, completamente imóvel. De repente Angelina colocou a mão esquerda sobre uma pedra e de um golpe decepou o seu terceiro dedo. O sangue jorrou. Angelina levou a mão à boca e sugou o próprio sangue. Como a hemorragia não cessasse, Bárbara fez um torniquete e aplicou-o à raiz do dedo. Em poucos minutos, o sangue parou de correr. Angelina apanhou o dedo do chão, limpou-o e devorou-o até os ossinhos. A unha, jogou-a fora, porque em criança tinham-lhe proibido roer unhas – feio vício.
           Bárbara observou-a em silêncio. Quando Angelina terminou de comer, pediu-lhe uma falange; quebrou-a, e com a lasca, palitou os dentes. Depois ficaram conversando, lembrando cenas da infância etc.
Nos dias seguintes, Angelina comeu os dedos das mãos, depois os dos pés. Seguiram-se as pernas e as coxas.
Bárbara ajudava-a a preparar as refeições, aplicando torniquetes, ensinando como aproveitar o tutano dos ossos etc.
            No décimo quinto dia, Angelina viu-se obrigada a abrir o ventre. O primeiro órgão que extraiu foi o fígado. Como estava com muita fome, devorou-o cru, apesar dos avisos de Bárbara, para que fritasse primeiro. Como resultado, ao fim da refeição, continuava com fome. Pediu à Bárbara um pedaço de pão para passar no molhinho.
Bárbara negou-se a atender o pedido, relembrando as ponderações já feitas.
           Depois do baço e dos ovários, Angelina passou ao intestino grosso, onde teve uma desagradável surpresa; além das fezes (achado habitual neste órgão), encontrou, na porção terminal, um grande tumor. Bárbara observou que era por isto que a outra não vinha se sentindo bem há meses. Angelina concordou, acrescentando: “É pena que eu tenha descoberto isto só agora.” Depois, perguntou à Bárbara se faria mal comer o câncer. Bárbara aconselhou-a a jogar fora esta porção, que já estava até meio apodrecida; lembrou os preceitos higiênicos que devem ser mantidos sempre, em qualquer situação.
          
No vigésimo dia, Angelina expirou; e foi no dia seguinte que a equipe de salvamento chegou ao altiplano. Ao verem o cadáver semidestruído, perguntaram a Bárbara o que tinha acontecido; e a moça, visando preservar intacta a reputação da irmã, mentiu pela primeira vez em sua vida:

- Foram os índios.         
 Os jornais noticiaram a existência de índios antropófagos na Bolívia, o que não corresponde à realidade.






Você pode encontrar outros contos de Moacyr Scliar clicando em Academia Brasileira de Letras.

Há ou a?






Na fala a diferença entre “há” ou “a” não fica clara porque não vemos a escrita, porém, quando escrevemos, devemos estar conscientes à qual deles (há ou a) nos referimos.

Qual a diferença no uso de cada um, então?

  • O carteiro procurava por seu endereço meses.
  • Posto de serviços a trinta minutos.

A primeira sentença fala de uma ação que se iniciou no passado e ainda permanece. A segunda trata de tempo futuro.

Há – expressa noção de tempo passado.
  • Há dez dias que não a vejo.


A – expressa noção de tempo futuro.
  • Poderei encontrá-la daqui a dois dias.


Você pode trocar “Há” por “Faz” para falar de tempo passado, mas lembre-se de que eles são invariáveis, ou seja, mantêm-se igual no singular e no plural.

  • Há uma hora que estou nesta fila.
  • Faz uma hora que estou nesta fila.
  • Há duas horas que estou nesta fila.
  • Faz duas horas que estou nesta fila