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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Em princípio / A princípio, o que faço?



Parecem expressões sinônimas, não parecem? Não são. Não é questão de colocar em seu texto aquela que fica mais charmosa. Em princípio tem um significado -  A princípio, outro. Preste atenção nestas frases:

  • Em princípio, concordo com sua atitude, mas é preciso rever certas falas.
  • A princípio, concordei com sua atitude, mas depois percebi o quanto estava sendo injusta.

Qual a diferença de significado de Em princípio – A princípio nessas frases?

Em princípio é o mesmo que dizer de um modo geral, em tese, teoricamente, antes de mais nada.

A princípio é o mesmo que dizer inicialmente, no começo.

Cuidado, portanto, com suas escolhas.

A princípio, você pode cometer deslizes, mas, em princípio, você deve acreditar que vai acertar todas..:-).

sábado, 24 de setembro de 2011

O que nos falta?

    
  Capa de: O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível 
João Francisco Duarte Jr.

    Muito se tem falado sobre atitudes agressivas, sobre a perda de valores, que têm atingido a todas as camadas da sociedade, seja em casa, seja no trabalho, seja na rua, seja na escola. Eu presencio diariamente cenas de deixar qualquer um de cabelos em pé – e mesmo aqueles sem cabelos. Nem preciso descrevê-las, porque com certeza, você aí, leitor, também presencia várias atitudes “desordenadas”, digamos assim, no seu dia a dia.
    Estou lendo no momento a linda tese de Duarte Jr. (O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível) sobre a educação estética - por meio da arte -, e concordo plenamente com ele quando diz que a “capacidade sensível do ser humano” vem sendo substituída pela sociedade moderna pela “anestesia” – a negação do sensível, a incapacidade de sentir. E não é isso mesmo? Poucos apreciam as boas coisas, poucos param para sentir as coisas, poucos elogiam, poucos percebem as paisagens, os bons cheiros, o que é belo, poucos...poucos...poucos.
    Por isso a grande e urgente necessidade de dar atenção aos “processos sensíveis do corpo”, diz o autor. Para Duarte Jr., a crise da sociedade contemporânea gira em torno da deseducação dos sentidos.  Diz ele que o ser humano entrou em uma espécie de regressão que chegou a níveis “toscos e grosseiros”, haja vista a degradação do meio-ambiente, do espaço urbano, da falta de valores que podemos perceber em todos os lugares. Volto a repetir: E não é isso mesmo?
    O que podemos fazer? Eu, como professora, preciso com urgência levar os alunos a ter uma educação do sensível. Não é utopia. Sou professora e é o que tenho tentado fazer. Tenho tido bons resultados? Não sei ainda, mas a médio e longo prazo, penso, quem sabe, atingir alguns, e estes alguns possam, quem sabe, atingir outros alguns, e assim por diante. É isso que estou fazendo e vou continuar a fazer. Eu não desisto!

     Leia o livro de João Francisco Duarte Júnior (todo professor deveria ler, na minha modesta opinião) - O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível - Curitiba: Criar; e busque você também caminhos para pararmos de ser “toscos e grosseiros”.

 Até a próxima!

sábado, 10 de setembro de 2011

Canibal de Moacyr Scliar

Gosto muito deste texto do médico e escritor Moacyr Scliar. Neste texto ele mostra de forma alegórica a ganância dos seres humanos naqueles momentos em que o caminho da razão seria o de compartilhamento. Além disso, ele mostra que a corda arrebenta sempre para o lado mais fraco. Leia e aprecie!




CANIBAL


Moacyr Scliar



Em 1950, duas moças sobrevoaram os desolados altiplanos da Bolívia. O avião, um Piper, era pilotado por Bárbara; bela mulher, alta e loira, casada com um rico fazendeiro de Mato Grosso. Sua companheira, Angelina, apresentava-se como uma criatura esguia e escura, de grandes olhos assustados. As duas eram irmãs de criação.
             O sol declinava no horizonte, quando o avião teve uma pane. Manobrando desesperadamente, Bárbara conseguiu fazer uma aterrissagem forçada num platô. O avião, porém, ficou completamente destruído, e as duas mulheres encontravam-se, completamente sós, a milhares de quilômetros da vila mais próxima. Felizmente (e talvez prevendo esta eventualidade), Bárbara trazia consigo um grande baú, contendo os mais diversos víveres: rum Bacardi, anchovas, castanhas-do-pará, caviar do Mar Negro, morangos, rins grelhados, compota de abacaxi, queijo-de-minas, vidros de vitaminas. Esta mala estava intacta.
            Na manhã seguinte, Angelina teve fome. Pediu a Bárbara que lhe fornecesse um pouco de comida. Bárbara fez-lhe ver que não podia concordar; os víveres pertenciam a ela, Bárbara, e não a Angelina. Resignada, Angelina afastou-se, à procura de frutos ou raízes. Nada encontrou; a região era completamente árida. Assim, naquele dia ela nada comeu. Nem nos três dias subseqüentes. Bárbara, ao contrário, engordada a olhos vistos, talvez pela inatividade, uma vez que contentava-se em ficar deitada, comendo e esperando que o socorro aparecesse. Angelina, pelo contrário, caminhava de um lado para outro, chorando e lamentando-se, o que só contribuía para aumentar suas necessidades calóricas.
            No quarto dia, enquanto Bárbara almoçava, Angelina aproximou-se dela, com uma faca na mão. Curiosa, Bárbara parou de mastigar a coxinha de galinha, e ficou observando a outra, que estava parada, completamente imóvel. De repente Angelina colocou a mão esquerda sobre uma pedra e de um golpe decepou o seu terceiro dedo. O sangue jorrou. Angelina levou a mão à boca e sugou o próprio sangue. Como a hemorragia não cessasse, Bárbara fez um torniquete e aplicou-o à raiz do dedo. Em poucos minutos, o sangue parou de correr. Angelina apanhou o dedo do chão, limpou-o e devorou-o até os ossinhos. A unha, jogou-a fora, porque em criança tinham-lhe proibido roer unhas – feio vício.
           Bárbara observou-a em silêncio. Quando Angelina terminou de comer, pediu-lhe uma falange; quebrou-a, e com a lasca, palitou os dentes. Depois ficaram conversando, lembrando cenas da infância etc.
Nos dias seguintes, Angelina comeu os dedos das mãos, depois os dos pés. Seguiram-se as pernas e as coxas.
Bárbara ajudava-a a preparar as refeições, aplicando torniquetes, ensinando como aproveitar o tutano dos ossos etc.
            No décimo quinto dia, Angelina viu-se obrigada a abrir o ventre. O primeiro órgão que extraiu foi o fígado. Como estava com muita fome, devorou-o cru, apesar dos avisos de Bárbara, para que fritasse primeiro. Como resultado, ao fim da refeição, continuava com fome. Pediu à Bárbara um pedaço de pão para passar no molhinho.
Bárbara negou-se a atender o pedido, relembrando as ponderações já feitas.
           Depois do baço e dos ovários, Angelina passou ao intestino grosso, onde teve uma desagradável surpresa; além das fezes (achado habitual neste órgão), encontrou, na porção terminal, um grande tumor. Bárbara observou que era por isto que a outra não vinha se sentindo bem há meses. Angelina concordou, acrescentando: “É pena que eu tenha descoberto isto só agora.” Depois, perguntou à Bárbara se faria mal comer o câncer. Bárbara aconselhou-a a jogar fora esta porção, que já estava até meio apodrecida; lembrou os preceitos higiênicos que devem ser mantidos sempre, em qualquer situação.
          
No vigésimo dia, Angelina expirou; e foi no dia seguinte que a equipe de salvamento chegou ao altiplano. Ao verem o cadáver semidestruído, perguntaram a Bárbara o que tinha acontecido; e a moça, visando preservar intacta a reputação da irmã, mentiu pela primeira vez em sua vida:

- Foram os índios.         
 Os jornais noticiaram a existência de índios antropófagos na Bolívia, o que não corresponde à realidade.






Você pode encontrar outros contos de Moacyr Scliar clicando em Academia Brasileira de Letras.

Há ou a?






Na fala a diferença entre “há” ou “a” não fica clara porque não vemos a escrita, porém, quando escrevemos, devemos estar conscientes à qual deles (há ou a) nos referimos.

Qual a diferença no uso de cada um, então?

  • O carteiro procurava por seu endereço meses.
  • Posto de serviços a trinta minutos.

A primeira sentença fala de uma ação que se iniciou no passado e ainda permanece. A segunda trata de tempo futuro.

Há – expressa noção de tempo passado.
  • Há dez dias que não a vejo.


A – expressa noção de tempo futuro.
  • Poderei encontrá-la daqui a dois dias.


Você pode trocar “Há” por “Faz” para falar de tempo passado, mas lembre-se de que eles são invariáveis, ou seja, mantêm-se igual no singular e no plural.

  • Há uma hora que estou nesta fila.
  • Faz uma hora que estou nesta fila.
  • Há duas horas que estou nesta fila.
  • Faz duas horas que estou nesta fila

domingo, 14 de agosto de 2011

Verbos e preposições

Você já ouviu falar em regência verbal? Ela trata dos elementos que acompanham os verbos. Por exemplo: O verbo “necessitar” precisa de preposição? Se precisa, qual? A parte da gramática que trata desse assunto é “Regência verbal”.

Na língua inglesa, para quem a conhece, há muitos verbos que precisam de preposição, e muitos delas quando adicionadas aos verbos mudam seu significado – a esse fenômeno, digamos assim, deu-se o nome de “phrasal verbs”. Será que as preposições que acompanham certos verbos na língua portuguesa mudam seu significado como acontece na língua inglesa? A resposta é: sim, mudam. Vamos ver alguns?

O verbo “aspirar”:
  • Aspirei o perfume da flor. (aspirar = cheirar = sentir o odor)
  • Aspiro a uma vida melhor. (aspirar a = desejar)

O verbo “assistir”:
  • O técnico assistia os jogadores machucados. ( assistir = ajudar)
  • Assistimos ao mesmo filme pela terceira vez. (assistir a = sentido de ver)
  • Assistimos em Volos durante 5 anos. (assistir em = morar)

O verbo “visar”:
  • O atirador visou o alvo. (visar = mirar)
  • Não tive tempo de visar os documentos. (visar = dar visto)
  • Todos visam a uma melhora econômica. (visar a = objetivar)

O verbo “proceder”:
  • Suas reclamações não procedem. (proceder = ter fundamento)
  • A falta de bom senso procede da falta de se colocar no lugar do outro. (proceder de = ter origem)
  • Os pesquisadores procederam a uma nova investigação já que os resultados anteriores foram alterados. (proceder a = dar início)

O verbo “implicar”:
  • Sua decisão implicará consequências ainda não avaliadas. (implicar = causar)
  • O acusado implicou mais duas pessoas no crime. (implicar em =  envolver)
  • Por que ele sempre implica com ela? (implicar com = provocar)

Esses são alguns verbos que dependendo do uso ou não da preposição o sentido muda. Além disso, há muitos verbos que necessitam de preposição. No início dessa postagem eu perguntei:

O verbo “necessitar” precisa de preposição? Se precisa, qual? Precisar sim.

  • Necessitar de – Necessito de sua ajuda.

Estes verbos também necessitam de preposição:

Precisar de, gostar de, ter de.
  • A empresa precisa de um novo funcionário.
  • Ele gosta de ler livros complexos.
  • Tenho de terminar o artigo em breve.
Na próxima postagem, trarei mais exemplos de verbos e preposições. Fiquem de olho!:-)

 

sábado, 13 de agosto de 2011

Funções do Se: parte 3

Falaremos agora sobre o uso do “se” como indeterminação do sujeito e sujeito acusativo:
Indeterminação do sujeito: 

  • Precisa-se de livros. 

Quem precisa? Não sabemos.

  • Morre-se de tédio.

Quem? Também não sabemos.

  • Necessita-se de voluntários.
Quem necessita? Outra vez, não sabemos.


Sentenças assim, cujo sujeito não é claro, ou seja, ele é indeterminado, a partícula “se” tem a função de “Índice de indeterminação do sujeito”, pois não podemos apontar quem precisa, quem morre, quem necessita.

Você pode perguntar: O que é sujeito indeterminado?

Primeiramente: Não é possível determiná-lo - questão sine qua non J

Além disso:

O verbo encontra-se na 3ª pessoa do plural, sem a existência de uma pessoa que cometeu a ação:
  • Enviaram o e-mail para o endereço errado.
  • Disseram que ele chegou atrasado.

Quem enviou o e-mail? Quem disse que ele chegou atrasado? Não sabemos.

E ainda, o verbo encontra-se na terceira pessoa do singular mais a partícula se – detalhe – nesses casos o verbo é sempre transitivo indireto, ou seja, vem acompanhado de preposição.

  • Precisa-se de mais tempo.
  • Necessita-se de voluntários.

Neste último caso o sujeito é indeterminado e classificamos a palavra “se” como índice de indeterminação do sujeito.


Sujeito acusativo

O elemento “se” é considerado sujeito acusativo quando ele é sujeito de um verbo e objeto direto de outro ao mesmo tempo. Que enrolado! Mas um exemplo vai clarear, eu penso:
  • Eles deixaram-se levar pela indisciplina alheia.

Qual o objeto do verbo deixar? “se” que corresponde a “eles”.
Qual o sujeito do verbo “levar”? “se”.

Ou seja, o objeto do verbo deixar é “se” e o sujeito do verbo levar é “se” também. Quando isso acontece, a partícula “se” é chamada de sujeito acusativo, afinal foram eles mesmos os responsáveis por cometer uma ação e por ser o objeto dessa ação.  

Dúvidas? Pergunte..:-)

domingo, 31 de julho de 2011

Eu vi ela????


Gostaria de chamar a atenção para o uso popular de pronomes do caso reto (ele, ela, etc.) como objetos de uma sentença. Esse uso fica tão fossilizado que as pessoas acabam usando essa forma na escrita formal como se ela fosse a correta.

Os pronomes do caso reto (eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas) são usados como sujeitos  – aqueles que praticam uma ação.

É muito comum encontrar em trabalhos escritos frases tais quais: Ela deixou ele / Ela viu ele.

Nessas sentenças “ela” é o sujeito – ele é o objeto. Só que os pronomes usados como objeto são os oblíquos (me, te, se, o, a, os, as, lhe, lhes, nos, vos, se). Da mesma forma que não é adequado escrever “Ela deixou eu”, não é adequado “Ela deixou ele”. O certo é: Ela o deixou / Ela o viu.

Eu vi ela....piora um pouco mais - viela significa rua estreita, beco.

O que devemos ter cuidado é com os locais onde se dá a fala. Há lugares que a forma popular não pega mal, mas há lugares que a norma culta é necessária. Fique atento(a)!

Fonte da imagem:  http://antonio-almeida.blogspot.com/2009/04/cuidado.html

Mais abreviaturas

Abreviatura é, às vezes, um assunto complicado – cada um diz uma coisa, uns criticam outros por isso ou por aquilo. Ao investigar sobre esse assunto na Internet, deparei-me com discussões calorosas. Ao exemplo de uma disputa que encontrei sobre como se abrevia a palavra “atenciosamente” (att - at.te, etc.). O melhor a fazer então é seguir uma linha de pensamento. O VOLP contém uma lista bem completa. Preparei uma com as abreviações mais comuns. Para aqueles que necessitam de ir além dessa lista, consultem o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa – versão impressa (VOLP) - a partir da página 866 vocês podem encontrar muitas reduções (abreviaturas). Além disso, pesquise em sites mais confiáveis como o da ABNT, do INMETRO e outros sites acadêmicos. 
Se você quiser saber uma abreviatura que não há na lista a seguir e não tiver acesso ao VOLP impresso, por favor deixe sua pergunta nos comentários.

A.
autor
a.C.
Antes de Cristo
d.C.
Depois de Cristo
A/C ou a/c
Aos cuidados
aa
Assinados(as)
an.
anual
apart. / apt. / apt.o / apto
apartamento
às v.
às vezes
at.o
atencioso
at.te
atenciosamente
atr.
através
av. / aven.
avenida
c.c
confere e conforme
c/
com
c/
conta
c/c
vonta-corrente
cal
caloria
cap.
capítulo
caps.
capítulos
Cia.
companhia
cx.
caixa
e.g. ou p.ex.
por exemplo
ex.
exemplo
fols. ou fs.
folhas
h
hora
kcal
quilocaloria
kW-h
Quilowat(s)-hora
lb.
libra (moeda)
pág. (A ABNT usa p.)
página
págs.
páginas
pp.
páginas

Funções do Se: parte 2




Além da função de pronome reflexivo e de partícula integrante do verbo, como vimos na postagem anterior – Funções do Se: parte 1, o “Se” também faz papel de partícula apassivadora e de partícula de realce, chamada, também, de partícula expletiva.

Partícula apassivadora
Serve para indicar que a frase está na voz passiva sintética. O que é voz passiva sintética?

Só para relembrar:

Vozes do verbo

Voz ativa: o sujeito faz a ação:
  •  Martha digitou todo o trabalho em apenas trinta minutos.

Sujeito: Martha

Voz passiva: Quem comete a ação agora é o agente da passiva:
  • Todo o trabalho foi digitado por Martha em apenas trinta minutos.

Sujeito: Todo o trabalho
Agente da passiva: por Martha.

A voz passiva divide-se em dois tipos: 

Voz passiva analítica e voz passiva sintética.

Voz passiva analítica: Algo é feito por alguém.
  • A prova do concurso está sendo preparada.
  • A estatística foi feita pelo IBGE.
  • A prova foi bem elaborada.

Voz passiva sintética: Faz-se algo
  • Cortam-se cabelos.
  • Falavam-se bobagens.
  • Finalizaram-se as provas.
  • Alugam-se casas.

Perceba que essas frases podem ser transformadas em voz passiva analítica (apenas frases com verbos transitivos diretos - aqueles que não vem acompanhados de preposição):
  • Cabelos são cortados
  • Bobagens são faladas
  • As provas foram finalizadas.
  • Casas são alugadas.

Voltando ao assunto partícula apassivadora: o elemento “se” nas sentenças passivas sintéticas é chamado de partícula apassivadora. 



Partícula de realce ou expletiva

Como já dito, é usada para dar maior ênfase ao que se quer dizer. Acompanha verbos  intransitivos, ou seja, aqueles que não necessitam de complemento.
  • Murcham-se as flores. 

O verbo murchar, não necessita de pronome e é intransitivo (Flores murcham).
O “se” nesse caso é usado apenas para realce.

Outro exemplo:
  • O vento se foi tão rápido quanto veio. 



 Na próxima postagem sobre esse assunto falarei de: “se” como índice de indeterminação do sujeito e “se” como sujeito acusativo. Até lá!

sábado, 23 de julho de 2011

Felicidade Clandestina




Em São Paulo fui a uma livraria – Livraria da Vila - que me deixou endoidecida. Eram tantos livros em edições tão variadas e tão lindas que me deu, realmente, vontade de abraçá-los. Havia, também, um vendedor tão íntimo dos livros que me deu aquela coceira de levar vários. Essa paixão pelos livros me fez lembrar do conto da Clarice Lispector, Felicidade Clandestina. Eis o conto:

Felicidade Clandestina - Clarice Lispector

   Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
   Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
   Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
   Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
   Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
   No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
   Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
   E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
   Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
   E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
   Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
   Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
   Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.