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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Um apólogo

Clicando em Releituras você vai encontrar um conto bem legal do Machado de Assis intitulado “Um apólogo”.

O conto é um apólogo. Você sabe o que é um apólogo? É uma narrativa que personifica seres inanimados, ou seja, objetos transformam-se em personagens cujas características são humanas. No caso desse conto de Machado uma agulha e uma linha convertem-se em seres bem intrigantes.

Leia e reflita: Qual seu papel? Agulha ou linha? Prefiro ser alfinete, sem incomodar ninguém!

Uma das características na escrita do Machado que eu adoro é a maneira que ele interrompe a narrativa para falar com o leitor. Você já percebeu isso em suas obras? Em “Um apólogo” ele faz isso quando diz: “Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela”. Para mim é como se estivesse ouvindo a sua voz..:-)

Para quem quer saber mais sobre Machado de Assis, clique aqui.



Vício de linguagem

Um vício de linguagem muito popular é a troca de eu por mim em sentenças como:  “Este livro é para mim ler”. Ricardo Russo, conteudista do site algosobre.com, explica o grande equívoco de uma maneira bem engraçada. O autor explica que mim não pode ser sujeito de ninguém, já que “mim não passa no vestibular; mim não namora, mim não vai a jogo de futebol. Eu, sim, passo no vestibular”. Por conseguinte “mim” não pode ser sujeito de “ler”.

Trocando em miúdos:

Sempre antes de verbo use pronome pessoal: eu, tu, ele, etc.

  • Esse doce é para você apreciar.
  • Este livro é para ele estudar.
  • Aquele teste é para tu fazeres.


E por aí vai!

Vou estar enviando...?????






Muito interessante o gerundismo que tomou conta das conversas nas empresas, nas repartições públicas, e em muitos outros lugares, até em escolas. É o caso do “vou estar transferindo...”, “vou estar enviando..”. Esse é um tempo verbal que não faz parte da língua portuguesa, pelo menos quando se trata de falar sobre coisas que acontecerão em um futuro breve. Dizem que essa mania veio da leitura de manuais em inglês nas empresas. Nem mesmo assim. Em inglês diz-se “I can’t call you at 5 tomorrow, because I’ll be taking an exam.” (Não posso te ligar às 5 amanhã porque estarei fazendo um exame). Em inglês, usa-se este tempo verbal para falar de uma ação mais longa no futuro que estará em andamento quando outra ação mais curta acontecer.

No português a frase “Amanhã às 8 horas estarei assistindo a um bom filme”, diz-nos que antes das 8 já estarei assistindo ao filme, e depois das 8 também. Contudo usar esse tempo verbal “estarei + gerúndio” para falar de uma ação a ser realizada em um futuro próximo sem estar ligada a nenhuma outra ação, soa mais como má vontade de realizar tal tarefa.

Trocando em miúdos: melhor dizer: “Um momento, por favor, vou transferir sua ligação”, “Vou enviar o e-mail em instantes”, “Farei a tarefa assim que possível”, etc.

Pode-se usar: “vou enviar” ou “enviarei”....“Vou estar enviando” não dá né gente..:-)
Outro dia escutei a frase: "Vou estar indo ao shopping daqui a pouco'', fiquei pensando: “O que isso quer dizer???






domingo, 20 de fevereiro de 2011

Um conto...




Leiam este interessantíssimo conto de Julio Cortázar. É uma viagem! É ficção? É realidade? É realidade na ficção ou ficção na realidade? Um conto surrealista, eu diria!


Continuidade dos parques
Julio Cortázar


Havia começado a ler o romance uns dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou a abri-lo quando regressava de trem à chácara; deixava interessar-se lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta ao caseiro e discutir com o mordomo uma questão de uns aluguéis, voltou ao livro com a tranquilidade do gabinete que dava para o parque dos carvalhos. Esticado na poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intrusões, deixou que sua mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde e começou a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão romanesca ganhou-o quase imediatamente. Gozava do prazer quase perverso de ir descolando-se linha a linha daquilo que o rodeava e de sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto encosto, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que mais além das janelas dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pela sórdida disjuntiva dos heróis, deixando-se ir até as imagens que se combinavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte. 

Antes entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, com a cara machucada pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela fazia estalar o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal se amornava contra seu peito e por baixo gritava a liberdade refugiada. Um diálogo desejante corria pelas páginas como riacho de serpentes e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavam o corpo do amante como que querendo retê-lo e dissuadi-lo desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada havia sido esquecido: álibis, acasos, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O duplo repasso sem dó nem piedade interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma bochecha. Começava a anoitecer.

Já sem se olharem, atados rigidamente à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao norte. Da direção oposta ele virou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu, por sua vez, apoiando-se nas árvores e nas cercas, até distinguir na bruma do crepúsculo a alameda que levava à casa. Os cachorros não deviam latir e não latiram. O mordomo não estaria a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus da varanda e entrou. Do sangue galopando nos seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma galeria, uma escada carpetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e depois o punhal na mão, a luz das janelas, o alto encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.

Cuidado com "Onde"



Pessoal, um cuidado que todos devem tomar em textos escritos e falados é com o uso indevido do pronome relativo “onde” em sentenças como estas (e isso mais parece uma febre por aí):

  • “O século onde se desenvolveu a teoria da informação acabou há pouco.”
  • “O discurso onde o presidente acusou os pecuaristas não convenceu os críticos.”

Tanto a palavra “século” como a palavra “discurso” não são locais, não dão ideia de lugar. Não podemos, portanto, unir as frases com o pronome “onde”.  Ao invés, use “em que”. 

  • "O século em que se desenvolveu a teoria da informação acabou há pouco.”
  • “O discurso em que o presidente acusou os pecuaristas não convenceu os críticos.”

Você sempre pode trocar “onde” por “em que”, mas nem sempre “em que” por “onde”. 

Lembrem-se: onde retoma ideia de lugar, somente. 

Exemplos:

  •  A casa onde morei quando era criança foi destruída pelas águas do rio. (casa – indica lugar).
  • A cidade onde moro fica no litoral. (cidade – indica lugar)

Onde: lugar...lugar...lugar....:-)

Trema, como fica?




Bom, outra mudança na ortografia é a exclusão do uso do trema. Só se mantém o trema em nomes estrangeiros que o contenham: Müller, por exemplo.

Essa mudança traz um pouco de dificuldade para aqueles que estão aprendendo a língua portuguesa, pois fica difícil saber quando se pronuncia o “u”, como em linguiça ou questão. O uso do trema facilitava e muito a leitura. Que pena!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Para - Pelo - Polo - Pera



Vocês se lembram destas palavras que eram todas acentuadas?

  • Pára (verbo – presente do indicativo – 3ª pessoa do singular).
  • Pêlo (substantivo – o que os animais têm pelo corpo).
  • Pólo (substantivo - referente às regiões glaciais, ao esporte, a locais, etc.).
  • Pêra (substantivo – a fruta).

Pois é! Todas perderam seus acentos. Agora:

  • Para
  • Pelo
  • Polo
  • Pera

 Coisas da vida!

Vícios de linguagem




Vícios de linguagem são desvios da norma padrão de uma dada língua. Há vários tipos, haja vista a gama de problemas que podem ocorrer tanto na fala quanto na escrita. Os vícios estão aí, uns precisam ser combatidos, outros, aceitos.
Meu grande vício de linguagem são os neologismos. Outro dia escrevi em um texto o verbo oportunizar, vi-o por aí e gostei. Tratei-o de forma tão pomposa, dando-lhe característica mesoclítica. De repente, do nada, veio a dúvida. Corri ao VOLP e não o encontrei (já falei desse verbo aqui no blog, lembram?). Havia dado muita importância a um verbo que nem sequer existe. Pena! Estava tão bem encaixadinho. É verdade, neologismos são meus favoritos, porém sempre me dirijo ao meu grande amigo tira-todas-as-dúvidas, o VOLP. Assim é que ajo para evitá-los na escrita.

Há vícios de linguagem até em embalagem de balas:

  •  bala dura sabor artificial de cereja e eucalipto colorida artificialmente e aromatizado [não é bala?] artificialmente”. (Barbarismo morfológico se não me engano).

Nas embalagens de leite de caixinha também:

O Ministério da Saúde adverte:
  •  O aleitamento materno evita infecções e alergias e é recomendado até os 2 (dois) anos de idade ou mais.
Se compararmos com a frase: Por favor, liste as televisões com preços até 900 reais ou mais, soa muito estranho, não soa? Alguém explica?

Contudo, o vício de linguagem que mais presencio é “Todos os três, quatro, cinco seis...”.  Todos não são todos?

 Agora, o vício de linguagem que não deveria mais ser classificado como solecismo* de colocação é: Me perguntaram. Já está mais do que na hora de ele ser aceito, não está? Ele está em todos os lugares e em todas as bocas, até na de Oswald de Andrade: 

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro


Solecismo: erros de sintaxe que vão de encontro às normas de concordância, de regência ou de colocação.